1.2.08

Sobre embrulhos

De uns dias pra cá, percebi que o departamento de embrulho de várias lojas foi atingido pelas conseqüências nefastas da modernidade. Como se não bastasse termos de engolir comidas requentadas em microondas e votos de felicidades enviados por celulares, agora somos obrigados a nos contentar com presentes ensacados ou encaixotados, e não mais devidamente embrulhados com papel e laços de fita.

Ontem entrei numa livraria para comprar um presente para um amigo que aniversariava. Após escolher o livro (Reino do Medo, de Hunter S. Thompson) e escrever a dedicatória, pedi a vendedora para embrulhá-lo. Em questão de segundos, ela apanhou um saco brilhante e o colocou dentro. Notei que atrás dela havia um rolo de papel dourado acumulando poeira. Com a maior delicadeza que pude ensaiar, pedi: “Será que você não poderia embrulhá-lo?”. A funcionária retrucou de supetão: “Ele está embrulhado”. Evitei uma cara feia e respondi: “Nana nina não. Está é ensacado”. Apontei o papel às suas costas e exigi que exercitasse seus dotes manuais. A vendedora me olhou torto, resmungou algo, e iniciou o ato de embrulhar com a cara de quem chupa limão.

Atualmente, a seção de embrulhos da maioria das lojas está contaminada com preguicite aguda. Munidos de sacos e caixas, as vendedoras desconhecem a arte do embrulho. Imagino que parte dessa culpa deve ser creditada aos patrões. Creio que o requisito de saber dar um laço deixou de ser exigido durante a contratação.

Enquanto esperava meu presente ficar pronto, observei que a vendedora parecia precisava de um manual de instruções. A coitada não conseguia nem mesmo calcular a quantidade de papel necessária para o embrulho. Depois de ter cortado um pedaço grande demais, ela se viu obrigada a fazer uma gambiarra usando uma tesoura para aparar suas arestas. Não pude evitar e deixei escapulir um “vixi” de minha boca. Percebi ainda que a funcionária foi incapaz de esconder o durex atrás do papel, dobrando-o ao meio horizontalmente. “Será que ela saberia dar um laço no embrulho?”, vagueei comigo mesmo. Nem pensar, provavelmente amarraria seu próprio dedo no presente.

Um comentário:

Luiz disse...

Eu não sei se eu paro de rir pra ficar com dó da menina q teve q te aturar :) ou se eu continuo rindo pq eu sei q cada palavra deve ter acontecido como vc descreveu ...

Realmente isso tem acontecido mesmo ... mas vou confessar q acho a sacolinha mais simpática e prática (qd dá pra usar) do que certos embrulhos mal arrumados q já fiz por aí.

A propósito ... seu blog tá muito legal ... com as colunas e tudo. Vc tem q colocar o link dele no seu cartão de visitas.

Abraço,

Luiz.